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Desmitificando os Riscos da Cirurgia da
Obesidade
A exemplo de alguns países desenvolvidos,
a obesidade já é um dos principais problemas
de saúde pública em nosso meio. Só
na América Latina, estima-se que 200.000 pessoas
morram anualmente em decorrência das complicações
da obesidade. É sabido que a obesidade está
associada a doenças como hipertensão arterial,
diabetes tipo II, síndromes de hipoventilação,
doenças cardiovasculares, alterações
tromboembólicas, dentre outras, que levam o indivíduo
a um risco de morte 12 vezes maior em 7 anos quando
comparados com indivíduos sem excesso de peso.
Portanto, a obesidade deve ser tratada
como qualquer outra doença grave, ou seja, através
de tratamentos continuados que objetivem uma perda de
peso suficiente para melhoria das doenças associadas
e da qualidade de vida, a médio e longo prazo
de forma mantida. Para os pacientes com as formas graves
da doença (IMC > 35 Kg m2), o tratamento cirúrgico
é atualmente a única opção
que preenche esses critérios de eficácia.
Por outro lado, por se tratar de uma cirurgia de grande
porte, em indivíduos com condições
clínicas associadas que aumentam as chances de
complicações, a cirurgia da obesidade
traz consigo riscos que não podem ser menosprezados.
Dados recentes mostram que a chance de complicação
fatal na cirurgia da obesidade é de 0,5 a 1%,
sendo a embolia pulmonar (coágulos obstruindo
os vasos do pulmão) e as fistulas (escapes nas
junções cortadas e grampeadas do estômago
e/ou intestinos) os grandes vilões, responsáveis
pela grande maioria dos óbitos.
Esses riscos porém não
são maiores do que aqueles encontrados no tratamento
cirúrgico de outras patologias igualmente graves.
Por exemplo, uma gastrectomia (retirada de uma parte
do estômago) para tratamento do câncer ou
outra condição benigna no estômago
traz um risco de complicações fatais 10
vezes maior que a cirurgia da obesidade; operações
para retirada do intestino grosso complicam seis vezes
mais e a recanalização das artérias
do coração (ponte de safena) ou dos membros
inferiores tem taxas de mortalidade de aproximadamente
5%, cinco a dez vezes maior que as cirurgias da obesidade.
No entanto, por se tratar de patologias
onde já existe um conceito de doença grave,
essas estatísticas não repercutem tanto
quanto na cirurgia bariátrica. Excetuando-se
aqueles que vivem, ou sobrevivem, aos males da obesidade
extrema, o público leigo ainda considera o tratamento
da obesidade uma questão estética, e como
tal não compreende o porquê dos riscos.
Quando o leigo analisa os efeitos colaterais ou adversos
da cirurgia, sempre o faz comparando com o indivíduo
não operado magro, o que é um erro. A
análise de risco benefício da cirurgia
deve ser feita tomando por base a história natural
do obeso mórbido não operado. Deve-se
contabilizar a qualidade de vida que lhe resta, a expectativa
de vida, as perspectivas com a progressão da
doença e os riscos e custos das doenças
associadas.
A cirurgia da obesidade, portanto, traz
riscos compatíveis com o porte do procedimento
e do doente. Riscos adicionais são minimizados
com uma equipe experiente e bem treinada, capaz de selecionar
e preparar adequadamente os pacientes, tomar medidas
preventivas eficientes e utilizar técnicas bem
padronizadas com tempo cirúrgico otimizado.
Infelizmente somos eventualmente surpreendidos
por complicações que levam a re-operações,
internações prolongadas e mais raramente,
com mortalidade, que ocorreu em menos de um por cento
dos mais de trezentos pacientes operados no Centro de
Cirurgia da Obesidade. Porém, quando analisamos
os resultados dos restantes 99% que não tiveram
problemas maiores, encontramos o estímulo para
continuarmos no caminho que trilhamos. Obviamente, a
precocidade do tratamento da obesidade, evitando que
as doenças associadas evoluam e que o excesso
de gordura traga maiores dificuldades técnicas,
irão reduzir as chances de problemas.
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