Afinal Planejamento e Comunicação

Gigantes da "junk food" tentam escapar da obesidade
Produtores de "fast food" estão reagindo aos apelos
Andrew Ward - Financial Times

Um recente comercial de televisão da McDonald's nos Estados Unidos mostra Ronald McDonald, o mascote da gigante da fast food, jogando futebol com crianças, fazendo exercícios e dançando música pop. Não se vêem hambúrgueres ou batatas fritas.

"Este não é o Ronald McDonald de que eu me lembro da infância", diz Laurie Klein, diretora da consultoria de marketing Just Kid. "Ele costumava ser um ícone de comida divertida. Agora está sendo transformado em um embaixador de estilos de vida saudáveis."

Klein mostrou o anúncio de uma conferência de marketing de alimentos e bebidas realizada em Miami na semana passada como um exemplo da reação da indústria aos níveis crescentes de obesidade entre as crianças. "O fato de a McDonald's estar tirando os hambúrgueres e as fritas dos comerciais mostram como essa indústria está interessada na questão da obesidade", ela diz.

A conferência, que teve a participação de empresas como Nestlé, Kraft e Coca-Cola, se realizou em meio à crescente pressão sobre o setor para que deixe de anunciar "junk food" [literalmente, alimentos-lixo] e bebidas açucaradas para crianças.

Markos Kyprianou, o comissário europeu para Saúde e Assuntos do Consumidor, ameaçou no mês passado regulamentar a publicidade de alimentos se a indústria não modificar seu comportamento. "Existem grupos ativistas e políticos que querem colocar esse setor sob regulamentos do tipo aplicado ao tabaco e ao álcool", disse Mary Begalle, diretora de marketing da Schwann Food, na conferência KidPower em Miami.

Os oradores concordaram que a indústria deve mudar sua maneira de se comunicar com as crianças e promover produtos mais saudáveis para evitar a regulamentação na Europa e na América do Norte.

A Kraft foi elogiada pelo setor como um modelo, devido a sua decisão no mês passado de retirar anúncios de produtos populares como Kool Aid e biscoitos Oreo. Em seu lugar haverá comerciais de produtos menos engordativos, como bebidas e cereais com baixo teor de açúcar.

"A indústria está tentando mostrar que pode se auto-regular", diz Daniel Cook, um especialista em publicidade para crianças da Universidade de Illinois.

Faye Wong, que dirige uma campanha de saúde juvenil para os Centros de Controle e Prevenção de Doenças do governo dos Estados Unidos, acredita que o setor está no caminho certo. "Queremos cooperação, e não confronto", ela diz. "É do interesse da indústria ajudar a solucionar o problema, porque os custos da obesidade em termos de tratamentos de saúde e queda de produtividade vão afetar toda a economia."

Mas outros advertem que as companhias vão ter dificuldade para tornar as comidas saudáveis atraentes para crianças. Rachel Geller, sócia da consultoria de marketing Geppetto, insiste que "as crianças não gostam de nada com teor reduzido". Ela disse na conferência de Miami que as crianças não serão atraídas por menos açúcar ou porções menores. "Elas sempre querem mais e maior. Temos de encontrar uma nova linguagem para tornar os alimentos saudáveis desejáveis."

Klein acredita que as empresas precisam de estratégias de marketing duplas, que ressaltem os benefícios nutricionais dos alimentos para os pais, enquanto os anunciam para as crianças como saborosos e excitantes. Com muita freqüência, diz ela, produtos saudáveis como barras de cereais e sucos de frutas são desprezados devido à embalagem e ao marketing sem graça.

Uma nova bebida chamada 80 'N Sunny -uma combinação de leite com suco de fruta fabricada pela Dean Foods- é um tipo de produto inovador e nutritivo que poderá atrair crianças. "O desafio é criar alimentos saudáveis que tenham bom sabor, ou não darão certo", diz Klein.

Deb Campbell, gerente de vendas da Ball Corporation, a maior fabricante de latas para a Coca-Cola na América do Norte, salienta a dificuldade de afastar as crianças de produtos engordativos. "Alguns Estados proibiram o refrigerante nas escolas e o substituíram nas máquinas por bebidas lácteas e sucos. O problema é que ninguém os compra. Em vez disso, as crianças atravessam a rua para comprar garrafas maiores de refrigerantes na loja de conveniência", ela diz.

Sari Winick, gerente de marca do cereal Cap'n Crunch da PepsiCo, diz que é irreal esperar que as crianças parem de comer alimentos não-saudáveis ou que as companhias parem de fabricá-los. Mas o setor pode encorajar as crianças a queimar mais calorias.

"Não precisa ser tudo sobre baixo teor de gorduras e açúcar. Também precisamos incentivar as crianças a ter estilos de vida mais saudáveis e ativos", ela acrescenta.

Muitos especialistas dizem que a indústria não deve ser transformada em bode-expiatório de um problema que tem causas diversas. Mas poucos duvidam da gravidade da crise. Em Miami, os delegados ouviram que uma em cada cinco crianças americanas é obesa.

Klein diz que solucionar o problema da obesidade certamente vai exigir "um esforço conjunto maciço", envolvendo pais, professores, crianças, a mídia, a indústria alimentícia, a publicidade e o governo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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